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  • Edição 03

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    Tecnologia

    Um basta ao preconceito contra o reúso

    em 20 de Dezembro de 2017

    Parece obra de ficção, mas a história é verdadeira. Uma construtora encomendou um estudo sobre água de reúso para um edifício que iria construir e, com isso, constatou que a economia de água poderia chegar a 30%. Sabem o que aconteceu?

    Quem responde é o professor Ivanildo Hespanhol, diretor do CIRRA – Centro Internacional de Referência em Reúso em Água, vinculado ao Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. “Os donos do prédio resolveram fazer uma pesquisa com potenciais compradores e a maioria respondeu que não aceitaria ter água que já havia sido usada em outros processos, nas descargas dos apartamentos”.

    Esse tipo de comportamento, causado pelo desconhecimento sobre as tecnologias relacionadas com a água de reúso, é um dos principais obstáculos para o avanço desse processo no Brasil. No Japão, por exemplo, para derreter a neve só se usa água de esgoto tratada. E nos prédios japoneses, a água coletada como esgoto, após o tratamento é jogada novamente na linha que vai abastecer as descargas.

    O professor Ivanildo, que falou a respeito deste tema no recente curso de capacitação realizado pelo SINDCON, em Campinas (SP), explica que atualmente no Brasil já existe uma sequência de reúso, porém não planejada.

    “As cidades que ficam na beira de rios tiram água de lá, tratam para o consumo e a devolvem como esgoto ao próprio rio”, explica. “Na sequência do leito, a outra cidade faz a mesma coisa: tira a água que já foi usada, trata e a devolve como esgoto. E assim por diante”.

    Ou seja, as pessoas não têm consciência de que o “reúso” já é feito. O resultado é que, em média, cada 30 metros cúbicos por segundo de água geram 240 metros cúbicos, também por segundo, de esgoto. “Onde vamos colocar tudo isso?”, pergunta o professor. “Onde estão os recursos para tratar todo esse esgoto? Não há dinheiro para tanto”.

    Segundo Ivanildo Hespanhol, a prática do reúso será mais efetiva se houver vontade política em promovê-la, inclusive por meio de financiamentos. Paralelamente, ele também defende a criação de uma regulamentação apropriada para estabelecer critérios corretos para a reutilização. “O assunto tem muitas variáveis”, acrescenta. “A água que pode ser reusada para lavar garagens não é a mesma que se usa para regar plantas, que também é diferente da que pode ser aproveitada nos vasos sanitários”.

    Por isso, o professor defende a regulamentação, mas que seja feita de acordo com todos os princípios técnicos adequados, sem inviabilizar a atividade. “O reúso precisa ser muito seguro, mas também ser econômica e socialmente aceito. Temos um longo caminho a percorrer”.

    Agricultura terá a ganhar

    A água de reúso é fundamental principalmente para a agricultura, que é responsável por 70% do consumo nacional de água. Ou seja, o potencial para o reúso nesse setor é enorme, pois é perfeitamente possível pegar a água, tratar e usá-la na irrigação, sem problemas. Dependendo do nível em que a água é tratada, ela pode até ser usada em irrigação de hortaliças, que são ingeridas cruas. Um grande exemplo de reúso está no Vale do Mesquital, uma área seca a 100 quilômetros da Cidade do México, onde a renda per capita há 100 anos era praticamente zero. Hoje, está acima de US$ 2 mil por causa da agricultura. Eles levaram o esgoto da cidade do México, de mais ou menos 80 metros cúbicos por segundo, para irrigar uma área de 600 mil hectares. Ou seja, é possível tratar a água da forma que for preciso. Ivanildo Hespanhol, Especialista em Água de Reúso

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