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  • Tecnologia e uso racional reduzem o custo da água

    23/01/2017

    Por Yves Besse

    Tem se falado muito da universalização do setor de saneamento, olhando apenas para o lado do investimento em expansão. Esquece-­se de um aspecto fundamental que é o investimento em eficiência operacional, o que permitirá atingir o custo sustentável, diretamente vinculado à condição social da população que usa a água. Este custo é aquele que, em condições de eficiência e eficácia operacional e de uso e consumo sustentável, define uma tarifa justa e adequada que permite à população pagar pela água.

    O custo varia muito em função das características e do tipo da água bruta utilizada para a produção, bem como a sua disponibilidade em termos quantitativos, qualitativos e geográficos. Águas superficiais, como os rios e os lagos, muitas vezes são abundantes em regiões de pouca urbanização, como na região amazônica. As águas subterrâneas são também fartas e geralmente melhor localizadas, como as do aquífero Guarani, mas são de difícil acesso por conta de sua profundidade, além de terem características que podem encarecer a produção de água potável, como alta temperatura ou salobras, como na região Nordeste.

    Existe também a possibilidade do uso da água do mar em regiões de escassez hídrica. Acrescenta­se a essas características outras, como PH, turbidez, composição física química, sem contar a poluição cada vez maior em áreas de alta urbanização, como a maioria das nossas capitais. São todas essas diferentes variáveis que irão definir o custo real da água.

    É preciso concluir rapidamente a modernização da lei de licitação em curso no Congresso

    Essas diferentes variáveis irão definir a solução mais adequada que viabilizará a universalização do saneamento brasileiro. Poucos sabem que nos últimos 20 anos o custo de produção de água no mundo baixou em 27 vezes por causa do desenvolvimento de novas tecnologias e continua diminuindo cada vez mais.

    Em sistemas tradicionais, o uso tecnológico pode, por exemplo, aumentar a velocidade de tratamento, como os sistemas lamelar ou sistemas MBBR, acelerar a decantação com a utilização de produtos químicos específicos, que otimizam a floculação, e acelerar a filtração com uso de materiais filtrantes especiais. Deste modo, uma mesma Estação de Tratamento de Água (ETA) construída há 20 anos pode produzir o dobro de água potável hoje somente com o uso de novas tecnologias, sem a necessidade de se construir novas estações para tratamento.

    Existem outras evoluções tecnológicas, como a utilização de membranas para a filtração, cujo custo tanto de produção quanto de manutenção diminuiu consideravelmente nos últimos anos. Outras tecnologias, como a flotação, permitem tratar mais eficientemente certas águas. Da mesma forma, as tecnologias de dessalinização a partir de osmose reversa ou de sistemas de evaporação evoluíram tanto que em muitos casos viabilizam o seu uso para a produção de água potável.

    Há ainda avanços consideráveis em automação e em sistema de tele gestão, como telecomandos e tele medição, e em sistemas de transmissão de dados que permitem gerir à distância e de maneira mais eficiente e eficaz unidades operacionais.

    Outro aspecto importante é focar na redução das perdas, que hoje estão em nível astronômico no Brasil, superior a 40%. Reduzir perdas só é possível com o uso de tecnologias e de ferramentas de gestão específicas. Da mesma forma, o desenvolvimento de software de gestão comercial e de hidrômetros que transmitem as medições à central são exemplos de ferramentas tecnológicas que permitem reduzir as perdas comerciais e diminuir o custo da água.

    Promover o uso racional da água é outro aspecto fundamental para a redução dos desperdícios e consequentemente dos custos. Da mesma forma que se criou uma classificação para a eficiência energética dos utensílios domésticos, o indicador de pegada d’agua é um conceito novo que irá promover o uso racional e influenciar os consumidores a comprar equipamentos com menor pegada d’água. Tanto que alguns países já estão pensando em definir a tarifa da água não apenas pela quantia de m³ consumida, mas também quanto menor for a pegada d’água do consumo de uma família, menor será sua tarifa.

    Cabe ressaltar que mesmo com todos esses avanços tecnológicos, em alguns países ou regiões de baixa condição socioeconômica os custos sustentáveis para se obter as tarifas justas e adequadas devem ser complementados por uma política adequada e transparente de subsídios diretos ou indiretos.

    No Brasil a tarifa é um assunto ainda tabu, assim como seu subsídio. O conceito do subsídio cruzado, criado nos anos 1970 e no qual as regiões mais pobres têm tarifas subsidiadas pelas mais ricas, está totalmente desvirtuado e acaba por esconder as ineficiências operacionais justificando a cobrança de tarifas mais altas.

    O que se deve praticar é a tarifa chamada de sustentável, ou seja, aquela que permite, em regime de eficiência, remunerar os custos operacionais, os investimentos e o capital investido e ser adequada a capacidade de pagamento dos usuários.

    Contudo, no caso do Brasil ainda estamos engatinhando tanto no uso sustentável das tarifas quando na tecnologia. Como 90% da população urbana brasileira é atendida por empresas públicas, temos que incentivar o uso de tarifa sustentável e de tecnologia promovendo uma mudança cultural interna na gestão dessas companhias e do saneamento de uma maneira geral. Temos que evoluir na regulação, no planejamento e na regularização da prestação de serviços para que as tarifas praticadas sejam cada vez mais sustentáveis.

    Temos que utilizar adequadamente as novas ferramentas e os novos modelos, como as Concessões, as Parcerias Público­ Privada (PPP), as locações de ativos, os contratos de performance definidos no novo marco regulatório brasileiro e concluir rapidamente a modernização da lei de licitação em curso no Congresso, para que as empresas prestadores de serviço público de água e esgoto e o setor como um todo possam acessar de maneira sustentável as tecnologias, buscar custos sustentáveis e praticar tarifas e subsídios justos e adequados e atingir a universalização.

    * Yves Besse é diretor geral de Projetos para América Latina da Veolia Water Technologies

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