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  • Indústria terá de aumentar capacidade para atender a pedidos

    12/08/2021

    BNDES estima que apenas 5 projetos com R$ 38 bilhões em investimentos irão demandar R$ 11 bilhões em encomendas para fabricantes de máquinas e equipamentos

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    O novo marco regulatório e as concessões e parcerias público-privadas que estão sendo firmadas irão resultar em encomendas de mais de R$ 140 bilhões para fabricantes de máquinas e equipamentos nos próximos anos, com a maior parte sendo aplicada até 2033, o que exigirá investimentos em expansão da capacidade total do segmento. A lei 14.026 de julho de 2020 estabelece metas de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033 – ou até 2040, em casos excepcionais.

    Esse foi um dos destaques apresentados nos debates do quinto episódio da websérie “Desafios da Implementação do Novo Marco Legal do Saneamento Básico”, ocorrido dia 17 de junho no YouYube. A websérie completa terá seis episódios – o último, em agosto, trará um balanço dos avanços e dos desafios após um ano de sanção da Lei 14.026/2020.

    Estudo preliminar do BNDES com base em cinco projetos de concessão e PPP estruturados pelo banco e licitados nos últimos meses, que somam R$ 38 bilhões em investimentos, aponta que a demanda por encomendas para a indústria será de R$ 11 bilhões. Os projetos que embasaram o estudo são a concessão do Amapá, concessão dos três blocos da Cedae no Rio de Janeiro, a PPP de Cariacica (ES), a concessão da região metropolitana de Alagoas e concessão na cidade de Porto Alegre.

    “São dados ainda preliminares que estamos fazendo de mapeamento da cadeia de fornecedores para identificar se há alguma lacuna que pode ser preenchida com política pública. Esses dados representam apenas 5% do que se estima que o setor poderá receber. Extrapolando-se os dados, é possível ver o que o volume irá crescer muito mais para atender à universalização”, disse Flavio Moraes da Mota, chefe do Departamento da Indústria de Base e Extrativa do banco de fomento.

    “Vivemos um novo momento no setor. Estamos falando de investimentos de quase R$ 500 bilhões, sendo que R$ 100 bilhões em tubos e R$ 42 bilhões de máquinas e equipamentos”, disse Giuliano Vito Dragone, diretor de desenvolvimento e novos negócios da GS Inima Brasil.

    Estudo da ABCON SINDCON divulgado em 2020 aponta que o investimento total estimado para expansão da rede com o novo marco regulatório é de R$ 753 bilhões. Desse total, serão necessários R$ 498 bilhões de novos investimentos para expansão da infraestrutura de saneamento e mais R$ 255 bilhões deverão ser investidos para a recomposição da depreciação, (dos quais R$ 145 bilhões para a recomposição dos ativos já existentes e R$ 110 bilhões para a recomposição dos novos investimentos a serem realizados).

     

    Demanda crescente de tubos, máquinas e petroquímicos

    O trabalho da ABCON SINDCON destaca que a cada um real investido em saneamento para extensão de redes, cerca de 76 centavos irão para a construção civil e 6 centavos para máquinas e equipamentos. O estudo mostra ainda que o setor de saneamento poderá movimentar indiretamente R$ 1,4 trilhão na economia e gerar até 14 milhões de empregos ao longo dos próximos 13 anos.

    Percy Soares Neto, diretor executivo da Abcon, disse que os investimentos vão ser fundamentais para ajudar a economia a crescer depois da crise da covid-19. “São aportes em diversas áreas, na compra de maquinários e na construção da infraestrutura das redes”, disse.

    O levantamento da ABCON SINDCON aponta ainda uma janela importante para a construção civil, que deve captar 76,6% dos R$ 498 bilhões em investimentos projetados até 2033. “Estamos em um caminho que podemos realmente superar obstáculos que estão há décadas para serem ultrapassados e parece que chegamos finamente neste momento de fazê-lo, temos uma missão histórica pela frente”, resumiu Venilton Tadini, presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). “Logicamente tem muito ainda a fazer.”

     

    Nova capacidade de produção para atender aos pedidos

    Moraes da Mota, do BNDES, explicou que os dados do estudo elaborado pelo banco apontam que os fabricantes de bens de capital para o setor não representam um gargalo estrutural para atender à demanda crescente futura. “A elevação do consumo de tubos demandará investimentos na expansão da capacidade total, sendo que os fabricantes podem levar de seis a doze meses para colocar em operação esse acréscimo. Nova capacidade em resinas de PVC e soda cloro e em tubos de ferro fundido também poderão ocorrer”, destacou. “A meta de redução de perdas de água de 40% para 25% é outro impulsionador”, afirmou Pedro Paulo Dias Mesquita, gerente de Inteligência Setorial do BNDES.

    No estudo do BNDES, os cinco projetos analisados devem demandar R$ 11 bilhões em encomendas para a indústria, sendo que R$ 4,5 bilhões em equipamentos, R$ 3,8 bilhões em tubulações e R$ 2,8 bilhões em petroquímicos, afirmou Sabrina Schneider Martinez, gerente do BNDES. Em tubulação, cerca de 85% dos investimentos deverão ser aplicados até 2033, marco temporal principal para o cumprimento de metas de universalização.

    Até 31 de dezembro de 2033, é necessário garantir o atendimento de 99% da população com água potável e de 90% da população com coleta e tratamento de esgotos. Para os casos nos quais os estudos para a licitação da prestação regionalizada evidenciarem que não há viabilidade econômico-financeira para universalizar os serviços até 2033, a lei 14.026/2020 permite a extensão do prazo, desde que não ultrapasse 1º de janeiro de 2040 e haja anuência prévia da agência reguladora.

    São previstos nos cinco projetos estudados pelo BNDES a contratação de 33 mil quilômetros de tubos, o equivalente a mais de quatro vezes a extensão do litoral do Brasil. “Do total, cerca de R$ 2,2 bilhões serão direcionados para abastecimento de água e R$ 1,6 bilhão para esgoto, sendo que as redes adutoras se destacam como as principais consumidoras de tubos.”

    Nos tubos com até 500 mm de diâmetro, em que a maioria é usada em redes de esgoto, a maior parte é de plástico, sendo que em relação ao valor, 12% apenas se referem a metálicos. Nos tubos acima de 500 mm de diâmetro, em que a maioria é usada em redes de água, os metálicos são maioria, com 82% do valor a ser encomendado. Já em relação a equipamentos o estudo prevê encomendas de R$ 4,5 bilhões, sendo R$ 3,3 bilhões referentes a água e o restante a projetos de esgoto. “Há uma grande demanda por hidrômetros, mais de 100 milhões de unidades.”

    Em produtos químicos, a previsão é que haja encomendas de R$ 2,8 bilhões, com destaque para a expansão da demanda de cloro, que deve crescer 37% até 2040, por conta de novas estações de tratamento de água.  “Em tubulação, pode-se projetar 30 vezes o que estimamos, já que a Abcon estima que podem ser R$ 99 bilhões em investimentos com a universalização”, afirmou Pedro Paulo Dias Mesquita, gerente de Inteligência Setorial do BNDES.

    Em tubos, há cerca de quatro grandes fornecedores cuja capacidade total é de 140 mil toneladas anuais. Em resinas, a produção, em que Braskem e Unipar são líderes, a produção chega a pouco mais de um milhão de toneladas anuais. Em cloro, em que a Braskem também é líder, a capacidade está em 1,5 milhão de toneladas por ano.

     

    Planejamento na cadeia de fornecimento

    O investimento vai demandar um enorme planejamento de aquisições entre a cadeia de fornecedores e as concessionárias, destacou Adriana Manicardi, superintendente de Suprimentos e Contratações Estratégicas da Sabesp. Parceria e compartilhamento de risco serão essenciais no relacionamento entre as operadoras e fornecedores para atender à nova demanda do saneamento, ressaltou Gabriel Colonese, superintendente de Projetos Estruturados da Engetec Construções e Montagens.

    “Temos visto ágios de mais de 100% ou deságios muito expressivos. Os projetos estão apertados, o compartilhamento de riscos passa a ser importante. Vimos isso no aço no ano passado, então construtoras e operadoras terão de compartilhar riscos. Podemos também ajudar na avaliação dos projetos desde o início e discutir métodos construtivos inovadores para que eles possam ser usados nesses empreendimentos. Estar junto desde o pré-leilão é importante. Com inovação, a taxa de retorno do projeto muda”, disse Colonese.

    Tratamento de efluentes, combate a perdas de água e potabilização são algumas das especialidades da Veolia Brasil em suas operações no Brasil e no exterior, lembrou o CEO da companhia, Pedro Padranos. A empresa investe cerca de 5% da receita em pesquisa e desenvolvimento. “A seca histórica que o Brasil atravessa amplia a importância do reuso da água e do tratamento de efluentes. Temos tratado água de reuso para fins potáveis na Europa e no Oriente Médio. Também temos atuado na recuperação do lodo para que possa ser utilizado como fertilizante ou para produção de energia.”

    Padranos apontou que a parte financeira é essencial para avançar na universalização e que os projetos sejam rentáveis, mas que não se pode perder de vista que as soluções a serem aplicadas tenham sustentabilidade ambiental e operacional. “Por isso, trabalhar desde o início com as soluções melhores é muito importante e cada projeto pode ter sua particularidade”, disse. No Reino Unido, as estações de tratamento de água e esgoto investem no destino do lodo para produção de energia elétrica ou de fertilizantes, o que pode render receitas adicionais ao projeto. “Isso é pensar em uma economia circular, em aproveitar ao máximo o que se tem.”

    A demanda crescente ao longo dos próximos anos criará necessidade de adensamento da cadeia com a contratação de subfornecedores. Criam-se múltiplos desafios. Um, segundo Padranos, é a simplificação fiscal para evitar a bitributação, o que facilitaria a contratação de subfornecedores. Para Colonese, a tarefa é contribuir para que os subfornecedores possam se desenvolver e atender aos pedidos com requisitos de competitividade e inovação crescentes. “Isso passa pela exigência de qualificação dos fornecedores e para isso exigem tempo e dedicação para que eles possam se aprimorar tecnicamente e até desenvolvam programas de compliance ou se adequem às regras”, destacou Colonese, superintendente de Projetos Estruturados da ENGETEC Construções e Montagens.

     

    Necessidade de uma visão holística dos projetos

    Estela Testa, CEO da Pieralisi Américas, disse que as indústrias que fornecem para o setor de saneamento tinham se preparado para um ciclo virtuoso de expansão desde o fim dos anos 2000, quando foi sancionada a lei 11.445, que estabelecia diretrizes para o setor. Mas a demanda não chegou. “Estamos preparados para o novo momento”, afirmou a empresária. No entanto, ela destacou que, se não há obstáculos para produzir mais para atender à demanda, há receios sobre financiamento na cadeia. “Hoje estão caminhando muito rapidamente os contratos de performance, teríamos de projetar, construir, instalar e dar o início e aí receber em um período longo, então esse é um gargalo”, analisou.

    Para ela, ter acesso a crédito será importante, bem como trabalhar com novos modelos, a exemplo do aluguel de máquinas. “Essa pode ser uma solução para que se consiga atingir os projetos das concessionárias. E a agenda de universalização abre também a oportunidade de financiamento sob a agenda ESG, porque os ganhos em saneamento terão grandes impactos sociais e ambientais, o que ajuda também a solução financeira.”

    “Temos desafios grandes. A indústria se preparou porque imaginava que o ciclo iria se iniciar antes, agora teremos picos de demandas que irão surgir. Nos preparamos para propor soluções completas aos clientes e que possam ser usadas em orçamentos diferentes para portes diferentes”, destacou Ewerton Alex Garcia Pereira, diretor de Vendas da Tigre Água e Efluentes.

    Inovação será essencial na equação. “É preciso olhar com atenção os materiais melhores e não mais baratos. É preciso olhar mais amplo, analisar a manutenção, se ela irá continuar atendendo por 20 a 30 anos, ver a garantia dos equipamentos e sistemas e não pensar apenas no preço ou numa solução mágica”, observou Eduardo Pacheco, engenheiro sanitarista e diretor técnico do Portal Saneamento Básico. Um desafio é treinar a mão de obra que trabalhará na área. “Quem se formar na faculdade não estará pronto para atuar. Um apelo que faço aos fornecedores é treinar essas pessoas. Um bom projetista faz um trabalho por vez e precisaremos de gente boa”, ressaltou Pacheco.

    Estela Testa, CEO da Pieralisi Américas, aponta que a nova legislação é um incentivo para inovação. Na Europa, a legislação ambiental tem proibido que o lodo gerado nas estações de tratamento de esgoto seja enviado para aterros. Uma solução ambientalmente usada tem sido a destinação deste lodo a um processo de secagem e posterior destruição térmica da parcela orgânica, com aproveitamento de seu potencial energético. Na Alemanha, das quase 1,8 milhão de toneladas/ano de lama gerada (base seca), em torno de 65% são destruídos termicamente, sendo que mais da metade deste montante é utilizado como substituto de combustíveis fósseis.

    O biogás resultante do tratamento de esgoto é uma fonte renovável de energia com grande potencial de aproveitamento, sendo que as estações de tratamento de esgoto estão entre as fontes dessa energia ainda inexplorada.

    No Brasil, a nova lei cria estímulos para que as estações de esgoto também busquem receitas adicionais, como a de energia, ao evitar que o lodo seja destinado aos aterros. “A secagem do lodo era cara e se concorria com aterro, hoje a lei estabelece que não se pode direcionar para o aterro e, se você gerar fertilizante, você pode vender o fertilizante e ainda tem o apelo ambiental, a agenda ESG. O lodo, hoje um problema para as concessionárias, poderá se tornar cada vez mais um subproduto”, ressaltou.

    O avanço das metas de universalização de água e esgoto, com a maior cobertura da coleta e tratamento de esgoto, irá aumentar a produção de lodo. “A realidade da Região Metropolitana de São Paulo é diferente de muitas outras, tratamento de esgoto irá representar uma grande quantidade de lodo, que terá de ter soluções para lidar e será essencial ter uma visão holística sobre o tema. Tem de olhar saneamento com resíduos sólidos”, disse Pacheco.

    Ewerton Alex Garcia Pereira, diretor de Vendas da Tigre Água e Efluentes, disse que as empresas já começam a despertar para a nova realidade. “Hoje, em uma concessionária, o lodo virou uma oportunidade de receita adicional. Antes, era visto como custo.”

    Garcia Pereira afirmou que há perdas anuais de R$ 12 bilhões para as concessionárias em razão de perdas de água nas redes espalhadas pelo país. “A meta de 25% para 2033 é um desafio e estamos estruturando várias soluções, vimos como grandes oportunidades para as operadoras e para nós”, afirmou o executivo da Tigre. A pandemia também contribuiu para ressaltar o papel do saneamento. “Todo mundo fala de lavar as mãos, mas muitos não têm regularidade no abastecimento”, afirmou Estela.

     

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