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  • Déficit no saneamento atinge todas as regiões do país e reduz expectativa de vida

    15/05/2015

    O déficit de saneamento básico no Brasil é democrático: afeta todas as regiões brasileiras, os Estados ricos e pobres, reduz a expectativa de vida da população e até seu salário. De Norte a Sul do país, é possível verificar extremos como os Estados de Rondônia, onde 94% das moradias não são atendidas pela coleta de esgoto, e São Paulo, onde a falta de saneamento afeta 13,3% das residências. Em números de moradias, as carências se espalham: o Rio Grande do Sul concentra 3 milhões de domicílios sem coleta de esgoto (84% do total) e a Bahia tem 2,2 milhões de casas que não estão ligadas à rede coletora, segundo dados de 2010 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

    Os números foram compilados para a publicação “Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento Brasileiro”, estudo coordenado pelo Instituto Trata Brasil e pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) para traçar uma radiografia dos impactos econômicos da falta de saneamento, além dos benefícios que sua universalização traria em indicadores econômicos e de qualidade de vida, como saúde, educação, trabalho e renda, valorização de imóveis e incrementos na indústria do turismo.

    Segundo o estudo, a universalização da coleta de esgoto custaria ao país em torno de R$ 313,2 bilhões, mas só a economia anual com internações no Sistema Único de Saúde (SUS) alcançaria R$ 27,3 bilhões. Outro impacto positivo estaria na valorização dos imóveis, com incremento de R$ 178,3 bilhões e impactos positivos sobre a arrecadação de IPTU da ordem de R$ 845 milhões/ano. Na média nacional, o acesso a água tratada e coleta de esgotos permite uma valorização dos imóveis de 13,6%.

    “Queremos mostrar, com o estudo, que o déficit de saneamento no país não é um problema restrito à esfera pública. Isso impacta o setor empresarial de variadas formas, seja pelas perdas em educação e produtividade no trabalho e até pela perda de potenciais não explorados, como no caso da indústria do turismo”, afirma Marina Grossi, presidente do Cebds. Em contrapartida, o estudo mostra que a universalização do saneamento traria impactos palpáveis nessas esferas.

    O Estado de São Paulo seria um dos maiores beneficiados com a expansão do saneamento quando se analisa os aspectos de escolaridade e renda: a escolaridade dos jovens poderia aumentar em 0,24 anos de educação, trazendo um incremento de renda da ordem de R$ 30/mês, o que corresponde a um aumento de massa salarial de quase R$ 8 bilhões/ano. Efeito semelhante se daria no Rio de Janeiro. Com a universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgotos, o ganho de escolaridade dos jovens seria de 0,32 anos de estudo, com um efeito de R$ 38 adicionais na renda mensal.

    Isso ocorre com trabalhadores que vivem em regiões sem acesso à coleta de esgoto, ganham salários em média 10% inferiores aos daquelas que moram em áreas atendidas pelo serviço. A falta de acesso à água tratada impõe uma perda média de 4% na remuneração do trabalhador. Mas a distância pode ser ainda maior em Estados como o Amapá (déficit de saneamento de 93%), onde trabalhadores registram uma perda salarial da ordem de 13,6%, a maior diferença entre os Estados do país.

    Outro benefício da expansão do saneamento seria no combate à atual crise hídrica. Coletar e tratar os esgotos com posterior utilização da água para fins industriais e de abastecimento seria um alento para os momentos de maior escassez de água, como o atual. A Grande São Paulo vem enfrentando, desde o ano passado, os piores níveis de chuvas dos últimos 70 anos.

    “Tivemos um extremo climático em 2014, quando o volume de chuvas ficou 50% abaixo das médias históricas. Hoje operamos no limite da oferta, mas poderia haver maior resiliência se a Grande São Paulo tratasse seus esgotos e reutilizasse essa água em maior escala, em vez de jogá-las nos rios Tietê e Pinheiros”, diz Samuel Barrêto, gerente nacional de Água da ONG The Nature Conservancy (TNC) e do Movimento Água para São Paulo.

    (Publicado no Valor Econômico / Foto: Marcos Santos, USP Imagens)

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